13 de março de 2025

Do Abandono à Potência Cultural - O Caso Colmeia

Por Sérgio Luiz Marques de Oliveira¹

"Não se pode falar em desenvolvimento sem falar em cultura." ² 

 
O debate sobre a ocupação de espaços ociosos para fins culturais ganha cada vez mais força, especialmente quando observamos experiências bem-sucedidas como a do projeto Colmeia, em São José da Lapa, MG. Localizado na zona rural do município, no bairro Inácia de Carvalho, o Colmeia rompe com a lógica centralizadora e comprova que ações culturais de grande impacto podem — e devem — acontecer em territórios descentralizados, muitas vezes esquecidos pelas políticas públicas.

 A proposta do Colmeia nasceu em 1998, com a iniciativa generosa do casal José Geraldo Torres e Dona Virgínia Torres, que doaram um terreno de 8.500 m² para a construção de um centro comunitário. A filha do casal, arquiteta Juliana de Macedo Torres, com a colaboração do arquiteto Gustavo Penna, concebeu o projeto arquitetônico do prédio, que seria erguido e entregue à comunidade rural como um espaço de formação e integração social.

 Após o falecimento de José Geraldo Torres, coube ao seu irmão, Paulo Flávio Torres, a responsabilidade de retomar as atividades do projeto. Foi ele quem assumiu o desafio de reativar a proposta, tornando financeiramente possível a continuidade do Colmeia por meio de seu trabalho dedicado à captação de recursos. Em 2017, recebemos pessoalmente o convite do senhor Paulo Torres para produzir o projeto. Sua confiança e empenho foram decisivos para que o Colmeia voltasse a florescer, abrindo novamente as portas para a comunidade.

 Hoje, esse espaço é utilizado em sua totalidade. São oito salas de aula, refeitório, auditório, biblioteca, banheiros acessíveis, área externa coberta e salas de atendimento. Um prédio de dois pavimentos, construído há mais de vinte anos, que continua sendo ocupado em oferecer gratuitamente atividades sociais e culturais. Todos os sábados, o projeto oferece nove oficinas gratuitas e aulas de judô. Também garante café da manhã e almoço para todos os alunos, atendendo, em sua maioria, crianças de escolas públicas. Em tempos de ausência escolar, esse acolhimento se torna um alento para muitas famílias no quesito da alimentação.

 Grande parte do público atendido são famílias de baixa renda além de pessoas com deficiência, especialmente autistas, que encontram no espaço do Colmeia um ambiente seguro, acolhedor e estruturado para sua participação ativa. O cuidado com a escuta, com o desenvolvimento integral e com o respeito às diferenças é parte essencial do trabalho realizado.

 O Colmeia possui ainda logística estruturada. Um sistema de transporte busca os alunos em diferentes regiões da cidade, garantindo acesso e permanência. Atualmente, o projeto conta com apoio do Centro de Mineiridades e Artes João Guimarães Rosa do Instituto Minas Gerais, realizado pelo Núcleo Técnico de Artes Cênicas - NUTAC e pela Secretaria de Estado de Cultura e Turismo - SECULT MG , com patrocínio da joalheria Manoel Bernardes.

 Essa experiência se conecta diretamente com a proposta do projeto Kituo, que defende a ressignificação dos edifícios tombados como equipamentos culturais e de lazer. A trajetória do Colmeia mostra que é possível transformar estruturas físicas em espaços de convivência e cidadania. Ao invés de estarem fechados ou subutilizados, esses espaços podem abrigar atividades de formação, arte, esporte e cultura, movimentando o território e fortalecendo o sentimento de pertencimento da comunidade. 

Sérgio Marques Oliveira, Wladimir Medeiros e colaboradores servindo o almoço - Projeto Colmeia 2025 - Fotografia de Dyan Francis.

 A proposta do Colmeia vai além da formação artística. Em 2025, o Festival Colmeia já está em plena realização, com a Mostra de trabalhos realizados pelos alunos, além das apresentações cênicas, oficinas, shows musicais, exposições de artes visuais e artesanato, culinária popular e manifestações da cultura tradicional, como o Boi da Manta e a Capoeira. O evento revela a riqueza das expressões culturais do município e coloca os moradores no centro da cena, como protagonistas de sua própria história. A cada edição, o festival reafirma a identidade local e promove o encontro entre gerações, saberes populares e experiências artísticas diversas.

 Diante da potência desse projeto, fica a pergunta: por que não vemos mais iniciativas desse porte em áreas com maior visibilidade e infraestrutura, mesmo que ainda periféricas, mas com mais acesso? Quantos prédios públicos, escolas desativadas, galpões industriais, estações ferroviárias e edifícios tombados poderiam ser ressignificados para abrigar ações como o Colmeia? Quantos espaços históricos seguem fechados ou abandonados nos centros urbanos, enquanto iniciativas culturais precisam disputar cada metro quadrado para acontecer?

 Essa reflexão é o que move o projeto Kituo, ao propor que patrimônios e estruturas já existentes sejam reconectados com o presente, devolvidos à sociedade como espaços vivos, pulsantes e acessíveis. O Colmeia é uma prova de que isso é possível. Então, por que esperar mais para ocupar com cultura o que já está pronto para ser vivido?

 O projeto já atendeu mais de cinco mil pessoas, direta e indiretamente, e se tornou referência na cidade e na região. Muitos de seus ex-alunos hoje atuam como professores, monitores e colaboradores, criando um ciclo virtuoso de formação e retorno à comunidade. A sede própria é um diferencial importante, garantindo autonomia e estrutura adequada para a continuidade das ações.

 A permanência e consolidação do projeto Colmeia provam que investir em cultura é investir em gente. E que a ocupação inteligente de espaços é um caminho para garantir direitos, fortalecer memórias e construir um futuro mais justo e criativo para todos. 

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  ¹  Sérgio Luiz Marques de Oliveira é jornalista, contador, produtor e gestor cultural com mais de 20 anos de experiência com a Lei de Incentivo à Cultura, atuando em projetos nas esferas municipal, estadual e federal em diversos estados do Brasil. É produtor do projeto Colmeia e sócio do Núcleo Técnico de Artes Cênicas – NUTAC.

 ² FURTADO, Celso. Cultura e desenvolvimento em época de crise. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1984.

Alunos do Projeto Colmeia 2025 - Fotografia de Dyan Francis.

Estrutura e terreno de 8.500 m² do Projeto Colmeia em 2024 - Fotografia de Dyan Francis.

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